segunda-feira, 23 de maio de 2011

Pela provocação genuína e existência digital, vou virar blogueiro

Com 15 anos de atraso e uma sensação de que perderei mais momentos da minha vida à frente do computador, anuncio aos meus restritos admiradores – tomara que existam secretos – que virei um blogueiro. Se a minha experiência se limitará a este post, se virarei um fenômeno das redes ou ganharei notoriedade por provocar polêmica dando opinião sobre o que tenho embasamento nenhum, não sei. Apenas posso dizer o que me motivou a ampliar minha vida digital.

Antes de prosseguir, farei um falso juramento. “Escreverei apenas sobre assuntos dos quais tenho total conhecimento, não digitarei meras opiniões e ‘achismos’ e tentarei provocar debates que contribuam para o crescimento do País – quanto atrevimento – e na construção de uma sociedade mais justa”. Os sábios três leitores que estão perdendo o tempo lendo isso devem ter gritado. “Ora, então tente outra coisa, pois se você cumprir essas três premissas fará qualquer coisa, menos um blog”.

Não sejamos tão injustos. Entre milhões de blogueiros que propagam suas angústias e pensamentos sobre tudo construídos em segundos, devem ter alguns milhares que conseguem sair do raso e opinativo. O problema é que, na profissão que escolhi, é imperdoável criar um blog para fazer as pessoas perderem tempo lendo a mesma coisa que escutam na televisão, em rádios e jornais, cada vez mais infestados de “opinismo” em detrimento de informação e conhecimento.

É lógico que, para não me sentir perdido em um mundo novo, seguirei como modelos aqueles que me fazem acreditar que é possível sair da mediocridade no mundo dos bloggs. Ariel Palacios (http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/) com seus assuntos “argentinos” sempre foi meu favorito, ao combinar notícias quentes com uma contextualização cuidadosa e bem editada.

Não posso deixar de citar o blog de Xico Sá (http://xicosa.folha.blog.uol.com.br/), aquele que melhor consegue levar a antiga crônica que fechava os cadernos culturais para a tela do computador. É sempre bom ler alguém que tem cuidado na escolha das palavras, e é por isso que mesmo sem existir já tomo como exemplo um blog do Sérgio Augusto. Como seria prazeroso ler diariamente seus textos construídos com ironia e conhecimento, os quais espero ansiosamente a cada semana.

Mas talvez o que tenha provocado o impulso de eu sentar em frente ao computador e escrever o primeiro post da vida tenha sido uma deliciosa entrevista de Millôr Fernandes ao “Pasquim” em março de 1971, a qual descobri folheando a antologia da revista. O humorista sustenta entrevista inteira no cinismo, com provocações trocadas com os entrevistadores colegas do “Pasquim”.

Em determinado momento, ele defende que pertence a uma classe superior de profissão em relação a música e ao futebol por conta do uso do intelecto. E solta a seguinte frase. “O Pelé exerce uma atividade muito solicitada na praça, muito solicitada pelo establishment, muito solicitada pelas pessoas que gostam de ver “ATIVIDADE INFERIOR”, mas ela é inferior à música evidentemente. E no entanto, do ponto de vista de mercado, o futebol parece superior, mas não é.”

Uma provocação genuína, que se feita hoje provocaria acusações de elitismo e até racismo. Mas que, no contexto, funciona apenas como uma provocação construída para bagunçar. E que, cometendo o exagero de transposição de épocas, combate o politicamente correto, praga que cada vez mais atravanca discussões e padroniza pensamento. Longe de querer ser um Millor, adicionarei a palavra “provocar” na tríade do blog, composta também pelas palavras “interpretar” e “analisar”.

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